Amigos,
Afinal não basta aprender, treinar, saber, preparar. É preciso estar lá.
E, apesar do aspecto não ser promissor, com previsão de vento de 15km de W a aumentar para a tarde, tecto de 1800 em CB e 2400 em Espanha, cirros um pouco por todo o lado, estavam no AECB a Sobrevoar (Paulo e Lemauz, menos o Vento), o Pedro Fonseca, o Marco, o Luís Vieira e eu.
Havia uns cúmulos nos montes a SW da Gardunha que pareciam estar a vir na nossa direcção, o que nos deu o pretexto para esperarmos e fazermos aquilo que tão bem sabemos fazer: anhar. Depois de saciados começámos, na 27, a montar as asas. Os pássaros já lá andavam e o vento estava alinhado e fraco.
O Paulo ía dizendo, meio entre-dentes, que "já deviam estar a sair"...
Os cúmulos chegaram e passaram... Depois (!) começámos as séries de descolagem e - vou só falar por mim - à primeira não apanhei nada (4min), à segunda apanhei uns petardos (8min) e à terceira já quase consegui apanhar uma, que afinal perdi ao fim de meia dúzia de voltas esbaforidas (9min).
Para além do provérbio, à quarta foi de vez: porrada daqui e dali, muito difícil de centrar até aos 800 / 1000 m e depois lá fui subindo, com custo, na direcção do Pedro Fonseca que entretanto tinha, à segunda, conseguido apanhar a térmica do fim da pista e estava 500m acima de mim. Ainda havia uns fiapos das nuvens que entretanto tinham passado para E do AECB, com o vento a soprar de W e, como já não conseguia subir mais - estava a mais de 3km a E do AECB -, respondi pelo radio ao Lemauz que para os 300km acerca dos quais tinham passado a manhã a picar-me já só faltavam quase 100 vezes aquilo...
Pensei que o Pedro me acompanhava, por cima, e fui tentar a sorte para E e para os fiapos. Lá deram qualquer coisa e cheguei à nuvem a 2200; ziguezagueei mais duas nuvens para E e a 30km, já depois de me ter constatado sozinho, abria-se-me o voo no céu azul.
Como de costume e ao contrário das recomendações dos campeões escolhi as linhas do voo pelas aterragens possíveis, traçando, à medida que o dia foi evoluindo e a distância do "goto" que fiz para o AECB aumentava, a rota pelas áreas planas e amarelas, evitando montes, vales e zonas arborizadas. Felizmente fui-me aguentando e comecei a ganhar confiança, planeando os minutos seguintes do voo com mais antecedência em relação aos terrenos que iria sobrevoar.
Mais térmica menos térmica, lá fui andando quase sempre com o vento de cauda e às tantas vi Plasencia e os montes, a Sul, onde tinha, no ano antes, apanhado um termicão por volta dos 100km.
Já me chegava, um voo de 100+. Mesmo antes de Plasencia há uma rotunda gigante com um terreno que parecia bom para aterrar e eu vinha com 900m (mar). Fiz-me a ele e apanhei um canhão que, juntamente com um bando de águias, me levou acima dos 2500. Nessa altura, 20km a S da serra de Gredos, tive de decidir ir pela planície em alternativa a ir pelo monte porque nos 10km para S do sopé do monte só havia terreno arborizado e a descer péssimo para aterrar, o Sol já estava muito de lado e deixava grandes áreas escuras na vertente da montanha, o vento aí tinha uma ligeira componente de N e o tecto, sob a forma de uns cumulozitos, estava apenas 200m acima do monte...
Fui pela planície e interceptei a rota que me tinha levado aos 200km no ano passado. O vento de cauda levou-me, a partir daí, sempre mais ou menos por cima da A5 até que, com menos de 750m e 180km, pensei que ficava por ali. Apanhei outra e, à medida que subia e derivava, vi o local onde tinha aterrado no ano passado e soube que ia passá-lo e fazer o meu maior voo de sempre. Fiz o pleno a 2200 e pensei que talvez desse à justa para chegar aos 230km do Paulo no ano passado. A seguir ainda apanhei mais uma que me levou a 2000 e que marcou o início do glide final. Passei os 230 e festejei, finalmente, o recorde nacional tirando uma fotografia de "thumb up" ao ultrapassar, com ainda quase 1000m, o recorde nacional "anterior" de 239km dos irmãos Frade.
E fui descendo. Escolhi uma bomba de gasolina da A5 e aterrei por trás, parado, numa seara de feno.
Telefonei ao Lemauz que entretanto já estava em Plasencia para me buscar e dei a boa novidade, que estava a 253km do AECB, no km 86 da A5. Rapidamente comecei a receber telefonemas de parabéns dos amigos, que agradeço. O Luís chegou hora e meia depois e ainda tivemos de caminhar 1km para cada lado, metade pelo meio das espigas, com asa e arnês às costas, já de noite.
Jantar na bomba, vinda e chegada, quase sem gasóleo, às 4:00 da manhã ao AECB.
Tenho de agradecer, como é costume, à Sobrevoar, não por ser o agradecimento uma forma polida de terminar a descrição de uma aventura mas pelo simples facto de se não existissem o Paulo Frade, o Vento e o Lemauz, CB não seria o local do país de onde se fez o maior voo de asa delta de sempre e eu não teria sido o feliz piloto desse voo.
E já só fiquei a 30km de Toledo...
Abraços do
Ricardo Marques da Costa.